Publicado em:
11/01/2012
Além da função protetora, a pele, o maior órgão do corpo humano pode ser considerada como um ecossistema complexo, composto por uma vasta diversidade de microorganismos distribuídos entre os diferentes nichos que a compõe. Esses organismos podem ser bactérias, fungos, vírus e ácaros simbiontes, que podem ajudar a nos proteger contra organismos patogênicos. E, como em qualquer outro o ecossistema, o desequilíbrio pode levar ao aparecimento de doenças e infecções.
A pele dos mamíferos contém apêndices como glândulas sebáceas, sudoríparas e folículos pilosos, que possuem a sua própria microbiota. Por exemplo, as bactérias que habitam as glândulas sudoríparas são responsáveis pelo cheiro característico quando suamos. Além disso, a pele também pode ser dividida por regiões, de acordo com a anatomia e fisiologia do corpo, sendo que para cada região existem diferentes tipos de microrganismos. Microrganismos simbiontes podem ser um dos maiores parceiros da saúde humana, permitindo um maior entendimento da interação com o hospedeiro e sua relação com o aparecimento de doenças.
Muito do que se sabe atualmente sobre a microbiota da pele foi possível através de métodos de cultura desses microrganismos. De maneira que o que se conhecia até então estava restrito ao que se podia cultivar, deixando de lado toda uma diversidade que não crescia em laboratório. No entanto, com o avanço da tecnologia, métodos baseados no sequenciamento em larga escala têm revelado uma diversidade muito maior de microrganismos presentes na pele do que aqueles já vistos pelos métodos tradicionais.
Um estudo publicado em 2009 na revista Science mostra justamente o potencial do sequenciamento em larga escala. Foram utilizadas amostras de 20 regiões diferentes da pele de 10 pacientes sadios. A análise por sequenciamento do gene da subunidade menor 16S do RNA ribossomal (RNAr) mostrou que as bactérias presentes em nossa pele pertencem principalmente a quatro filos diferentes: Actinobacteria, Firmicutes, Bacteroidetes e Proteobacteria; e que a distribuição de membros desses quatro grupos ocorre de acordo com a região e fisiologia da pele. Regiões diferentes contêm composições distintas dos quatro grupos.
A análise por metagenômica tem revelado, por exemplo, que espécies de bactérias Staphylococcus and Corynebacterium spp são as principais colonizadoras de regiões úmidas da pele (como a sola do pé). Em regiões mais secas e com maior quantidade de glândulas sebáceas (como a pele do rosto, do peito e das costas), aumenta a presença da bactéria lipofílica Propionibacterium spp. As áreas secas são as mais diversas, com representantes dos quatro filos.
Outros fatores também podem influenciar a diversidade da microbiota da pele. O estilo de vida de um indivíduo (alimentação ou tipo de roupas) bem como a idade, sexo e local de vida podem influenciar a variabilidade dos microorganismos presentes. De fato, um bebê quando está no útero de sua mãe encontra-se em ambiente estéril e durante o parto a pele do recém nascido é colonizada pelos microrganismos presentes no canal vaginal ou da pele da mãe (no caso de cesariana). Já na puberdade, o microbioma da pele pode ser amplamente alterado pelo aumento de bactérias lipofílicas, que se proliferam graças à maior produção de sebo na superfície da pele, causada pela alteração dos hormônios sexuais característicos dessa fase.
O uso de antibióticos, e outros fatores, também causam alteração da microbiota. Agentes de uso contínuo como sabões, cremes, produtos de higiene pessoal e cosméticos também possuem uma grande responsabilidade na alteração dessa microbiota. No entanto, até o momento, nenhum estudo verificou a mudança desse ecossistema na presença de doenças em detalhes moleculares.
Nos Estados Unidos, em 2007, o NIH (National Institutes of Health) iniciou um projeto denominado Human Microbiome Project (Projeto do Microbioma Humano), com investimentos de aproximadamente $140 milhões de dólares por 5 anos, que tem como objetivo caracterizar a microbiota de várias partes do corpo humano, como fossas nasais, cavidades orais, pele, trato gastrointestinal e urogenitais e investigar a sua relação com a saúde humana.
Este tipo de iniciativa, e a utilização de técnicas moleculares modernas e análise por metagenômica podem ser de grande utilidade para o desenvolvimento de novos produtos e medicamentos, que podem auxiliar na cura de doenças bem como na melhoria da qualidade de vida e bem estar dos seres humanos. Talvez, em alguns anos, tenhamos produtos cosméticos desenhados não apenas para certos tipos de pele, mas também planejados para favorecer microorganismos simbiontes, da mesma forma que consumimos alimentos probióticos atualmente.
Referências:
Grice EA and Segre JA. The skin microbiome. Nature Reviews Microbiology 9, 244-253 (2011).
Grice EA et al. Topographical and temporal diversity of the human skin microbiome. Science 324, 1190–1192 (2009).